Caros leitores,
No ensaio de ontem alguns músicos fizeram uma reunião informal. Entre outros temas discutiu-se a fé. Ao contrário do que muitos membros do côro pensaram ser uma bancada de comércio de tremoços, a reunião foi bastante produtiva.
Todos nos sabemos pelas avós ou bisavós (aqueles que ainda as têm) que quando se amassava o pão, a avó fazia uma cruz no pão, rezava, e cobria com as calças do avô para o pão levedar. Aos nossos olhos não tem nada de esquisito. é comum pedir-se a ajuda divina e também é comum cobrir o pão. Mas comecemos por analisar a cruz. Ao fazer uma cruz no pão vão se abrir mais poros para entrar mais oxigénio no interior da massa, logo o pão vai crescer mais. Para além disso o facto de cobrir a massa com as calças do avô tem como base a crença de que assim como o homem fertiliza a mulher e a sua barriga cresce, também o pão deveria crescer. No entanto existe uma explicação racional. O avô trabalhava no campo, portanto as suas calças eram resistentes. Seriam as ideais para fazer o pão levedar porque aumentavam a temperatura no interior da masseira, logo o pão ainda cresceria ainda mais. Havia ainda quem colocasse ao pé do pão a garrafa do vinagre, símbolo da masculinidade do homem. Não pensem no entanto que estou a ser preverso. Esta uma realidade que foi encarada por muitos e por muito tempo como tabú. Estudos deste género foram objecto de censura no Estado novo.
Para além deste tema, falamos de muitos outros no dia de ontem.Aalguns colegas ficaram a conhecer que muitas tradições religiosas tiveram origem e fundamento em festas pagãs. A etnologia é uma ciência que estuda o homem, e que tal como as outras ciências humanas tenta estudar o homem da forma mais objectiva possível. Deste modo, não se pôs em causa a importância dos ensinamentos do livro sagrado, pois todos sabemos que são bons ensinamentos. Pôs-se sim em causa a cristianização de festas pagãs em tudo relacionadas com o pecado original. Relembro que festas como a festa da goma, a festa dos prazeres, a festa dos verdes eram nada mais, nada menos do que festas em que os namorados se encontravam não apenas com o intuito de namorar, mas com objectivos de indole directamente relacionada com a moral sexual.
Para além disto, notamos que o ciclo solar, o ciclo do trigo, e o ciclo da lua influenciam directamente a vida dos humanos, e pela qual a igreja colou em cima dessas festividades o Natal e a Páscoa, assim como muitas outras festas. O exemplo do dia de todos os santos (designado como dia dos finados) marca o um tempo morto, tempo este que corresponde ao tempo de germinação das sementes da terra.
Repare-se também no dia de S. António, o padroeiro dos casamentos. A morfologia da palavra tem origem em athon (trigo), adon (adão), adonae (deus). Repare-se que primeiramente surge a designação do trigo, sendo que o adonae é o suposto Deus que fez com que o trigo produzisse.
O ciclo solar é também marcante nas nossas vidas. O solstício de inverno comemorado mt anteriormente ao nascimento de Cristo e o solstício de verão comemorado com o S. João. A fogueira de S. João cristianizado é nada mais, nada menos do que a presença da luz do sol no seu auge, que surge depois de cristianizada como elemento purificador dos pecados. Antigamente as festas serviam como locais para resolver conflitos. Pancadaria e navalhadas eram frequentes. O povo resolvia as desavenças por si mesmo e no fim deitavam-se os foguetes. Daí o martelo de S. João ser também tradição.As festas eram nada mais nada menos do que mecanismo de controlo social a vários níveis.
Nas festas, existia e existe ainda uma diferenciação da rotina. Este é um tempo de excessos.
As pessoas que vão á festa levam roupas novas, comem e bebem mais que o habitual. Uma comunidade em festa tenta mostrar uma utopia de igualdade entre todos, que depois não se verifica no dia-a-dia. Até mesmo o simples acto das procissões e das bandeiras da festa são encarados do meu ponto de vista como delimitação do território da comunidade, acto que já se faz desde os tempos mais remotos.
Não estou a pôr em causa a existência ou não existência de Deus. Cada cristão terá as suas duvidas certamente, mas nem todos conhecem as origens do mundo rural que existiu em S. João de Ver, assim como em todo o país. Os olhos de José Cutileiro o primeiro etnólogo português, e de Jorge Dias, pai da etnologia portuguesa trariam a todos os crentes e descrentes desta ou outra qualquer religião mais dúvidas.
Sendo que a cultura é fonte de liberdade, considerei que deveria publicar este artigo, não para suscitar duvidas a ninguém, mas para encontrar as respostas de muitos. Não devemos ocultar a origem de uma religião, muito menos privar as pessoas de a conhecerem porque só conhecendo é que podemos considerar-nos realmente integrados numa comunidade.
Com os melhores cumprimentos,
Xavier Coutinho
No ensaio de ontem alguns músicos fizeram uma reunião informal. Entre outros temas discutiu-se a fé. Ao contrário do que muitos membros do côro pensaram ser uma bancada de comércio de tremoços, a reunião foi bastante produtiva.
Todos nos sabemos pelas avós ou bisavós (aqueles que ainda as têm) que quando se amassava o pão, a avó fazia uma cruz no pão, rezava, e cobria com as calças do avô para o pão levedar. Aos nossos olhos não tem nada de esquisito. é comum pedir-se a ajuda divina e também é comum cobrir o pão. Mas comecemos por analisar a cruz. Ao fazer uma cruz no pão vão se abrir mais poros para entrar mais oxigénio no interior da massa, logo o pão vai crescer mais. Para além disso o facto de cobrir a massa com as calças do avô tem como base a crença de que assim como o homem fertiliza a mulher e a sua barriga cresce, também o pão deveria crescer. No entanto existe uma explicação racional. O avô trabalhava no campo, portanto as suas calças eram resistentes. Seriam as ideais para fazer o pão levedar porque aumentavam a temperatura no interior da masseira, logo o pão ainda cresceria ainda mais. Havia ainda quem colocasse ao pé do pão a garrafa do vinagre, símbolo da masculinidade do homem. Não pensem no entanto que estou a ser preverso. Esta uma realidade que foi encarada por muitos e por muito tempo como tabú. Estudos deste género foram objecto de censura no Estado novo.
Para além deste tema, falamos de muitos outros no dia de ontem.Aalguns colegas ficaram a conhecer que muitas tradições religiosas tiveram origem e fundamento em festas pagãs. A etnologia é uma ciência que estuda o homem, e que tal como as outras ciências humanas tenta estudar o homem da forma mais objectiva possível. Deste modo, não se pôs em causa a importância dos ensinamentos do livro sagrado, pois todos sabemos que são bons ensinamentos. Pôs-se sim em causa a cristianização de festas pagãs em tudo relacionadas com o pecado original. Relembro que festas como a festa da goma, a festa dos prazeres, a festa dos verdes eram nada mais, nada menos do que festas em que os namorados se encontravam não apenas com o intuito de namorar, mas com objectivos de indole directamente relacionada com a moral sexual.
Para além disto, notamos que o ciclo solar, o ciclo do trigo, e o ciclo da lua influenciam directamente a vida dos humanos, e pela qual a igreja colou em cima dessas festividades o Natal e a Páscoa, assim como muitas outras festas. O exemplo do dia de todos os santos (designado como dia dos finados) marca o um tempo morto, tempo este que corresponde ao tempo de germinação das sementes da terra.
Repare-se também no dia de S. António, o padroeiro dos casamentos. A morfologia da palavra tem origem em athon (trigo), adon (adão), adonae (deus). Repare-se que primeiramente surge a designação do trigo, sendo que o adonae é o suposto Deus que fez com que o trigo produzisse.
O ciclo solar é também marcante nas nossas vidas. O solstício de inverno comemorado mt anteriormente ao nascimento de Cristo e o solstício de verão comemorado com o S. João. A fogueira de S. João cristianizado é nada mais, nada menos do que a presença da luz do sol no seu auge, que surge depois de cristianizada como elemento purificador dos pecados. Antigamente as festas serviam como locais para resolver conflitos. Pancadaria e navalhadas eram frequentes. O povo resolvia as desavenças por si mesmo e no fim deitavam-se os foguetes. Daí o martelo de S. João ser também tradição.As festas eram nada mais nada menos do que mecanismo de controlo social a vários níveis.
Nas festas, existia e existe ainda uma diferenciação da rotina. Este é um tempo de excessos.
As pessoas que vão á festa levam roupas novas, comem e bebem mais que o habitual. Uma comunidade em festa tenta mostrar uma utopia de igualdade entre todos, que depois não se verifica no dia-a-dia. Até mesmo o simples acto das procissões e das bandeiras da festa são encarados do meu ponto de vista como delimitação do território da comunidade, acto que já se faz desde os tempos mais remotos.
Não estou a pôr em causa a existência ou não existência de Deus. Cada cristão terá as suas duvidas certamente, mas nem todos conhecem as origens do mundo rural que existiu em S. João de Ver, assim como em todo o país. Os olhos de José Cutileiro o primeiro etnólogo português, e de Jorge Dias, pai da etnologia portuguesa trariam a todos os crentes e descrentes desta ou outra qualquer religião mais dúvidas.
Sendo que a cultura é fonte de liberdade, considerei que deveria publicar este artigo, não para suscitar duvidas a ninguém, mas para encontrar as respostas de muitos. Não devemos ocultar a origem de uma religião, muito menos privar as pessoas de a conhecerem porque só conhecendo é que podemos considerar-nos realmente integrados numa comunidade.
Com os melhores cumprimentos,
Xavier Coutinho

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